sábado, 2 de janeiro de 2010

A vida é um simulacro

Vou passando pela rua Direita, em Miracema, e bem em frente ao extinto Bar do Zé Careca encontro-me com o filósofo Juarez. Sim, aquele mesmo que me disse certa vez que a vida é um paradoxo. Puxou-me pelo braço e me segredou no ouvido: “Parceiro, a vida além de ser um paradoxo, também é um simulacro.” – Simulacro? – Exatamente, simulacro! Simulacro quer dizer aparência, semelhança, arremedo. – E daí? – Vou lhe dar um exemplo marcante. Já assistiu a TV Senado? – Assisto sempre. – Pois é, todos eles arrotam honestidade, preocupação com o Brasil, discursam muito bem, ficam indignados com a corrupção, todos se dizem pessoas exemplares, só fazem as coisas certas. Isto é um simulacro.
Com a minha proverbial ingenuidade, pergunto onde está a simulação. – Ora, meu jovem senhor! Quando estoura um grande escândalo de corrupção, quais os suspeitos que logo aparecem? Uns 10 senadores, 200 deputados e uns 20 Ministros. Estou mentindo? Claro, agora sem simulação, temos felizmente as exceções de praxe.
Sou obrigado a concordar com o filósofo e começo a enxergar os simulacros da vida. Vem-me à lembrança a outrora União Soviética, o paraíso do comunismo, igualdade absoluta, todo o povo feliz e muito bem de vida, grande potência. E eis que de repente, de um dia para o outro, acabou a União Soviética e todos vimos que não era grande potência coisa nenhuma, com um povo na miséria. Que grande simulacro! – Juarez, essa sua idéia me parece perigosa, pois já estou vendo simulacro em tudo na vida. – É isso aí, você aprendeu rápido, tá vendo como a vida é um grande simulacro? Quer outro exemplo? Veja o carnaval brasileiro. Até um dia antes de começar o carnaval, os repórteres da TV dão as notícias com ar de seriedade, mas assim que chega a festa de Momo, eles começam a mostrar uma cara de muita alegria e o povo vai na onda, todo mundo alegre, rindo à toa, sambando, dando as mãos, aquela maravilha rebolosa que todos nós conhecemos. De súbito, chega a quarta-feira de cinzas e toda a gente vai tratando de mostrar a cara séria, querendo logo engrossar uma procissão ou uma passeata contra a criminalidade, com choro e vela e tudo mais a que tenham direito. O que é isso? –Simulacro, digo eu, já apavorado com as farsas da vida e já imaginando o leitor fazendo suas reflexões e notando ora ali ora aqui, em suas casas, na rua, nas instituições sociais, que a vida é mesmo um grande simulacro.

Gdantas
ano/2008

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